Faz alguns anos, adquiri, em um sebo de Fortaleza, o livro intitulado A Comuna de Paris: textos, documentos e uma análise sobre as repercussões no Brasil. Ele foi publicado em 1968 pela editora carioca Laemmert. 

A obra é preciosa para o leitor brasileiro por conter a tradução para o português de documentos elaborados pelos communards no calor da insurgência popular que tomou Paris entre os meses de março e maio de 1871.

Os documentos foram compilados e comentados pelo advogado, jornalista e político francês Amédée Dunois (1878-1945), um ex-anarquista e sindicalista revolucionário convertido ao Partido Socialista francês que participou da resistência à ocupação nazista da Franca e foi assassinado pelos nazis após prisões em Bergen-Belsen. 

Entre as declarações, decretos e o manifesto da Comuna, se destacou para mim o documento intitulado Aos trabalhadores do campo, redigido pela romancista e feminista André Léo, cujo nome era Léodile Champseix (1824-1900), presidenta da comissão para educação profissional das jovens da Comuna, e Benoît Malon (1841-1893), operário, jornalista e escritor. Ambos foram próximos dos coletivistas da Associação Internacional dos Trabalhadores, no período da Comuna, e aos jurassianos, no exílio, após a derrota da insurreição.

O texto sana, em parte, uma dúvida minha: como os communards se relacionaram com o camponês? Visto ter sido a Comuna um movimento de insurgência urbana e a França a época um país de maioria rural?

O texto evidencia uma elaboração communard sobre o campesinato francês e nela, o camponês é visto como um aliado do operário da cidade. O escrito tem um tom de apelo e proselitismo, conclamando à solidariedade com a revolta em Paris e tentando combater a propaganda anti-Comuna realizada por patrões e reacionários entre a população rural.

É possível ver algo da influência proudhoniana e bakuniniana no tocante à crítica da propriedade privada e à necessidade da aliança operário-camponesa assumida pelos autores do texto. O que não está em desacordo com a proximidade que ambos tiveram com os bakuninistas da AIT durante e após a Comuna.

A palavra de ordem que se repete duas vezes no texto, "a terra para o camponês, a ferramenta para o operário", ecoa trecho do Nosso Programa, escrito por Mikhail Bakunin (1814-1876) e Nicolai Jukovski (1833-1895) em 1868, em russo, no qual se encontra a seguinte passagem: "A terra pertence a quem nela trabalha, à comuna rural. O capital e os instrumentos de trabalho pertencem aos operários, às associações operárias".

Abaixo transcrevo o documento. A tradução foi de Octavio de Aguiar Abreu.


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Aos Trabalhadores do Campo

Irmão, estão te enganando. Nossos interesses são os mesmos. O que eu peço, tu queres também; a liberdade que reclamo, é a tua. Que importa se é na cidade ou na campanha que o pão, o vestuário, o abrigo, os socorros faltam àquele que produz toda a riqueza deste mundo? Que importa que o opressor tenha o nome de grande proprietário ou industrial? Em tua casa, como na nossa, a jornada é longa e rude e não proporciona nem mesmo o que é preciso para as necessidades do corpo. Tanto a ti como a mim faltam a liberdade, o lazer, a vida do espírito e do coração.

Nós somos, ainda e sempre, tu e eu, os vassalos da miséria. Há perto de um século, camponês, pobre jornaleiro, que te repetem que a propriedade é o fruto sagrado do trabalho e tu o crês. Mas abre, porém, os olhos e olha em redor de ti; olha tu mesmo e verás que isso é uma mentira. Eis-te velho; sempre trabalhaste; todos os teus dias se passaram com a enxada ou a foice na mão, do alvorecer até a noite, e entretanto não és rico, nem mesmo tens um pedaço de pão para a tua velhice. Todos os teus ganhos foram gastos em criar penosamente filhos que o serviço militar vai-te tomar ou que, se casando por sua vez, levarão a mesma vida de besta de carga que levaste e acabarão como tu vais acabar: miseravelmente, porque se esgotando o vigor de teus membros, não encontrarás mais trabalho; molestarás teus filhos com o peso de tua velhice e cedo te verás obrigado, sacola às costas e curvando a cabeça, a ir mendigar de porta em porta a esmola desprezível e seca

Isso não é justo, irmão camponês, não o sentes? Portanto, vês bem que te enganam, porque, se fosse verdade que a propriedade é o fruto do trabalho, tu, que tanto trabalhaste, já serias proprietário, Possuirias aquela pequena casa, com um jardim e um cercado, que foi o sonho, o objetivo, a paixão de toda a tua vida, mas que te foi impossível adquirir, ou que não adquiriste talvez, desgraçado, senão contratando uma dívida que te esgota, te rói por dentro e que vai forçar teus filhos a vender, assim que morras, antes talvez, êsse teto que já tanto te custou. Não, irmão, o trabalho não dá a propriedade. Ela se transmite por sorte ou se ganha pela astúcia. Os ricos são ociosos, os trabalhadores são pobres e continuam pobres. Isso é a regra; o resto não é mais do que a exceção.

Isso não é justo. E eis porque Paris, que tu acusas baseado na fé de gentes interessadas em te enganar, eis porque Paris se agita, reclama, levanta-se e quer mudar as leis que dão aos ricos todo o poder sobre os trabalhadores. Paris quer que o filho do camponês seja tão instruído quanto o filho do rico, e por nada, uma vez que a ciência humana é o bem comum de todos os homens e não é menos útil para as conduzir na vida do que os olhos para ver.

Paris deseja que não haja mais um rei que receba trinta milhões de francos, do dinheiro do povo, e que engorde ainda sua família e seus favoritos. Paris deseja que, não se fazendo mais essa grande despesa, o imposto diminua grandemente. Paris exige que não haja mais funções que paguem 20.000, 30.000, 100.000 francos, dando de comer a um homem, num só ano, a fortuna de diversas famílias, e que com esta economia se criem asilos para a velhice dos trabalhadores.

Paris pede que todo homem que não é proprietário não pague um só vintém de imposto; que aquele que não possui mais do que uma casa e seu jardim também não pague nada; que as pequenas fortunas sejam taxadas levemente e que todo o peso do imposto caia sobre os ricaços.

Paris pede que sejam os deputados, os senadores e os bonapartistas, autores da guerra, que paguem os cinco bilhões de francos à Prússia, e que se vendam para isso as suas propriedades, juntamente com o que se chama de bens da coroa, dos quais não há mais necessidade na França.

Paris pede que a justiça não custe mais nada àqueles que dela têm necessidade e que seja o próprio povo que escolha os juízes, entre as pessoas honestas da região.

Paris quer enfim -  escuta bem isto, trabalhador da campanha, pobre jornaleiro, pequeno proprietário que a usura corrói, meieiro, rendeiro, fazendeiro, vós todos que semeais, colheis e suais para que o mais puro de vossos produtos vá para alguém que não faz nada; o que Paris quer, no fim das contas, é a terra para o camponês, a ferramenta para o operário, o trabalho para todos.

A guerra que Paris faz neste momento é a guerra à usura, à mentira e à preguiça. Dizem-vos que "os parisienses, os socialistas são repartidores", Mas, boa gente, não vedes quem é que vos diz isso? Não são repartidores os que, não fazendo nada, vivem regaladamente do trabalho dos outros? Não ouvistes jamais os ladrões, para fazer a troca, gritar: "Pega ladrão!" e escapulir enquanto prendem o roubado?

Sim, os frutos da terra são daqueles que a cultivam. A cada um, o seu; o trabalho, para todos.

Não mais muito ricos, nem muito pobres.

Não mais trabalho sem descanso, nem descanso sem trabalho.

Isso é possível, porque mais valeria não crer em nada do que acreditar que a justiça não seja possível.

Para isso, não é preciso senão boas leis, que se farão quando os trabalhadores deixarem de ser iludidos pelos ociosos.

E nessa época, acreditai-o bem, irmãos cultivadores, as feiras e os mercados serão melhores para quem produz o trigo e a carne e mais abundantes para todos, do que o foram jamais, sob qualquer imperador ou rei. Porque então o trabalhador será forte e bem nutrido e o trabalho, livre dos grandes impostos, patentes e taxas, que a Revolução não as levou todas, como parece bem.

Então, habitantes do campo, vós o vedes: a causa de Paris é a vossa e é por vós que ela trabalha, ao mesmo tempo que pelo operário. Esses generais que a atacam neste momento são os generais que traíram a França. Esses deputados, que vós nomeastes sem conhecê-los, querem nos trazer de volta Henrique V. Se Paris cair, o jugo da miséria continuará sobre vosso pescoço e passará para o de vossos filhos. Ajudai-a então a triunfar e, aconteça o que acontecer, lembrai-vos bem destas palavras, porque haverá revolução no mundo até que elas sejam realizadas:

A terra para o camponês, a ferramenta para o operário, o trabalho para todos.
Os trabalhadores de Paris.